domingo, 19 de fevereiro de 2023

O FENÔMENO DA NATURALIZAÇÃO DA FOFOCA.

 

O FENÔMENO DA NATURALIZAÇÃO DA FOFOCA.

Acreúna – GO, 2023. 

Carl Bloch; Na Taberna Romana. 

Há um fenômeno atípico que cresce na nossa sociedade, a qual é a naturalidade da fofoca. Atente-se que a naturalidade não é somente por parte de quem faz a fofoca, mas, agora, também por parte daqueles que são atacados por ela. Isso mesmo, falar da vida alheia se tornou algo natural. Para os que recebem os comentários maldosos, o que vale é estar se mostrando, ser observado, assim como é num espetáculo.

É difícil apontar um fator específico, tudo indica que, as mídias, principalmente a “internet”, mudou e muda a moral e a ética das pessoas. Basicamente é uma vontade de estar a ser falado pelos outros, mesmo que esse falar seja para denegrir a pessoa de quem se comenta. Mesmo assim, essa pessoa quer estar na boca do povo. É uma verdadeira “sociedade do espetáculo”.  

“Youtubers”, “influencers”, os não famosos do Big Brother Brasil (BBB) e todos os outros que ocorrem nos canais de entretenimento que expõe a vida das pessoas escancaradamente, mostram à nossa sociedade que, o que importa é ter fama, não importando a maneira. Isso está, por bem ou por mal, creio eu por mal, nos afetando.

Vamos ao primeiro princípio, que é sobre a pessoa que está fazendo a fofoca. Ela, basicamente, está reagindo aos seus instintos naturais, hormonais. Age mais pelos sentimentos do que pela razão. Fazer a fofoca dá prazer as pessoas, afinal, o intuito é ver a decadência do outro.

É bom lembrar de uma máxima na filosofia, até mesmo na psicanálise: o ato estar a falar dos outros, fala mais sobre si do que dos outros. Isso é a inveja, sim, inveja de não poder se aventurar nas mesmas proporções da pessoa que se fala. Isso é outra vontade humana, passar por aventuras. Na literatura está cheia dessa proposta, a ela encontramos em Rei Arthur, Dom Quixote, Robin Hood, e muitos outros. É a tentação de não estar num estado monótono, chamamos isso de tédio. Esses sentimentos servem também para os que dão continuidade ao falatório alheio.

O segundo princípio, falamos daquele que aceita, naturalmente, a fofoca sobre si. Isso pode ser positivo e negativo; lembrando que, um não está desligado do outro. Pode ser positivo, já que não deixou que o falatório alheio tomasse conta da sua vida social; não deixou que o ponto de vista de outros, geralmente depreciativo, afetasse o seu cotidiano. O lado negativo, é que essa naturalidade, propõe que somos uma sociedade que não se preocupa mais com a moral, e isso pode afetar as nossas ações éticas, ou seja, ações que temos que determinar racionalmente a melhor maneira de agir. 

Direcionando-nos ao ponto negativo, a falta tanto da moral quanto da ética, parece, a princípio, inocente, todavia se colocarmos essas virtudes dentro de um ambiente estatal ou empresarial, vamos ver que isso pode acarretar em um estrago muito grande. Imagine só, um governante, um empresário ou um servidor sem ética cuidando de processos, compras e vendas, dinheiro e afins. Parece absurdo, no entanto, nossa sociedade atual está repleta desses sujeitos. Infelizmente, isso é uma realidade, é concreto. O estrago cujo sujeito que não reflete sobre suas ações faz em uma sociedade é imensurável.

A naturalidade da fofoca colabora para que o sujeito não consiga perceber a importância das virtudes, isso vai se agravando com o tempo. Um sujeito sem virtude somente age pelas próprias vontades, é um mimado que não consegue pensar além da esfera que está ao seu redor, do seu pequeno mundo. 

 

O fenômeno da naturalização da fofoca, seja por aquele que faz, seja por aquele que se sente à vontade sendo abordado por ela, agem pelo afeto. Não têm amor por si, mesmo que vociferem o oposto. Dá mesma forma que não sentem compaixão pelos outros. Estão a buscar uma fama imediata, da qual as mídias de massa, principalmente a “internet”, insistem em fazer-nos acreditar que existe. Para ambos os lados, é um eterno se mostrar-se. Isso é a “sociedade do espetáculo”. 


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

A REBELDIA DE SÃO DINIZ: O CEFALÓFORO.

 

A REBELDIA DE SÃO DINIZ: O CEFALÓFORO.  

Martírio de São Diniz (Le Martyre de Saint-Denis) - Leon Bonnat 1880.

Acreúna-GO, 2023. 


O mural o Martírio de São Diniz (Saint-Denis) retrata o auge do momento em que o Santo, condenado à morte pela perseguição romana aos cristãos depois do século 250 d.C., toma a sua cabeça nas mães e a carrega por muitos metros, após ser decapitado. Com o ato de mártir de Diniz, faz-se converter muitos fiéis à religião católica, em Paris, França. Depois, no local do seu desfalecimento, é construída a igreja de Saint-Denis.

Há toda uma questão simbólica já presente na pintura e na história, mas o que quero destacar aqui é a questão da persistência do espírito de São Diniz. Depois de todo o feito em vida, de ter enfrentado a comunidade gaulesa e a política romana, continua persistido mesmo após decapitado. Configurando-se, assim, um ato de resistência.

A verdade, é que, existe um simbolismo muito grande, impactante, no feito de carregar a própria cabeça nos braços, isso é uma ação de rebeldia, não somente contra um sistema social/político, mas, também, contra o próprio determinismo da física. Com esse ato, o Santo vai de encontro, tanto com o sistema político, quanto com o próprio limite do corpo. Todos esses acontecimentos têm um catalisador, o qual é Deus. 

Perceba que chegamos a outra questão. Os grandes feitos, os que transformam de fato a si e toda uma sociedade, na sua grande maioria são designados àqueles que estão na presença de Deus e da santa Trindade. Os feitos da Bíblia são marcados por esses motivos, os atos históricos heroicos também são marcados pelo mesmo princípio. Isso se dá pelas motivações de acreditar em algo bom e maior. Maior do que a si mesmo, maior do que a própria política humana.

Persistir nas coisas difíceis e impossíveis, podem trazer bons frutos no futuro, mesmo que o idealizador não esteja mais em vida. É alguém que consegue ver além das aparências, planejar algo que vai além do seu ser. Esse homem tem como finalidade o de criar uma sociedade melhor. Por isso, o povo percebendo o esforço de São Diniz, tanto em vida, quanto na morte, se converte ao cristianismo. Tudo isso foi o trabalho ingrato do Mártir durante toda a vida, e que, mesmo sendo ingrato, não desistiu dele, o que fez refletir na sua morte.  

Quantas vezes deixamos abater pelas ofensas dos outros? Quantas vezes deixamos que as ações do estado nos aflita? Quantas vezes deixamos que as ilusões da vida imediatista nos enganem? Facilmente desanimamos. Mas, há de ser ao contrário, deveríamos reerguer-nos como um mártir cefalóforo, carregar a cabeça decapitada e organizar-nos, planejar, ver além, para assim, construir um lugar melhor. 

 

Referências:

CRUZ TERRA SANTA: https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-sao-denis/136/102/

Imagem:

https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Leon-Joseph-Florentin-Bonnat/90283/O-mart%C3%ADrio-de-s%C3%A3o-denis-(mural).html

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A CORAJEM DE TOMAR AS ATITUDES ELEVADAS.

 

A CORAJEM DE TOMAR AS ATITUDES ELEVADAS.

O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini.

Acreúna – GO, 2023.

 


A história “O Caçador de Pipas” começa no Afeganistão, antes da queda da monarquia pelos comunistas. Nela vemos, inicialmente, uma bela amizade entre Amir e Hassan. Porém, Amir, de família nobre, tem vergonha de lidar com a amizade de Hassan. Filho do empregado da casa, Hassan, também é um hazara, comunidade de uma casta desfavorecida de Cabul. Assim é, até as tramas se desenrolarem.

Na história, percebemos uma diferença de personalidades entre as duas crianças, Amir é mais centrado, introvertido e gosta de ler e escrever. O pequeno nobre de Cabul, inclusive, se sente desprezado pelo pai por ter tal personalidade. Por outro lado, Hassan é esperto, aventureiro e confrontador.

Uma das últimas aventuras dos dois amigos, Hassan vai em busca de uma arraia cortada na linha pela pipa de Amir, no final do campeonato de pipas. Como o hazara se pôs à frente do amigo, encontra uma turma de adolescentes buscando desordem, que maltratam o garoto; ao perceber o que acontecia, Amir se esconde.   Entre os rufiões estava Assef, líder da turma, sádico, a tal pondo de violentar Hassan. Mesmo assim, o garoto consegue proteger a pipa, devolvendo-a ao amigo. Infelizmente, por algum motivo, dada a situação, os dois não conseguem reatar a amizade. Alguns dias depois, acontece a invasão dos soviéticos no Afeganistão, por isso, Baba, pai de Amir, decide, junto ao filho, fugir do país e os dois amigos não mais se encontraram.

Há um problema aqui, é difícil conceber o que acontece com Amir ao ver o amigo hazara realizando um feito que necessariamente não era da sua obrigação. Hassan faz algo que estava além do seu encargo, provavelmente por isso Amir se incomoda tanto. O próprio Hassan diria que faria de tudo pelo amigo Amir, e isso o incomodava.

Existem pessoas que realizam feitos tão nobres ao ponto de nos incomodar. Incomodam, porque no senso comum, na sociedade em geral é difícil aceitar aquele que age da forma correta, independentemente de qualquer sofrimento. Fazer as coisas certas, metodicamente, é tomar decisões que podem pesar nas nossas vidas. Por consequência, causa ao outro um certo asco, seja por inveja, seja por não admitir que a ação aceita socialmente, na maioria das vezes, seria uma ação que não se aplicaria à verdadeira justiça.

Se nos direcionarmos ao sentido mais psicológico, vamos perceber que essa repugnância não é pelo outro, na verdade, é por si mesmo. É por si mesmo, já que, influenciado pela grande massa, o sujeito não consegue realizar as ações verdadeiramente nobres; também, por ignorância, não consegue compreender os motivos que levam o outro a tomar tal atitude. Esse era Amir, que sentia raiva da própria pessoa por não ter conseguido ter a coragem de Hassan, naquele momento.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

BRÁS CUBAS: A DOR DA MORTE SOLITÁRIA

BRÁS CUBAS: A DOR DA MORTE SOLITÁRIA

Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.

 Acreúna-GO, 2023.

 

Já no seu descanso eterno, Brás Cubas narra a sua história a realizar uma análise da sua vida de trás para frente. Tendo como principal cenário o Segundo Império no Brasil, Brás Cubas dedica a sua trajetória tentando ser bem-sucedido, mesmo que para isso tenha que usar de artifícios não necessariamente éticos. O protagonista sempre articula para sobressair aos outros, sendo eles próximos ou não, deixando-se engajar principalmente com a política.

Tendo todo esse enredo de ganância à vista, a trama desenrola-se com Brás Cubas sempre querendo adquirir mais poder e influência sobre os outros. Existem muitos fatores para tentar explicar as atitudes de Cubas, um deles são seus próprios familiares, que deixavam ele, ainda criança, fazer o que bem entendia, inclusive algazarra com os serviçais.

Direcionando-nos ao pai de Brás, Bento Cubas, vamos perceber algumas ações que colaborarão para as atitudes negativas do filho. Bento cuidava muito bem do filho, o patriarca tinha inclusive orgulho do menino, o problema é que a criança abusava dos escravos e da boa vontade das outras pessoas, futuramente se tornando um adulto mimado. Todos esses fatores fizeram com que Brás Cubas tivesse atitudes egoístas ao longo da sua vida. Tendo por fim, uma morte solitária, sem esposa ou filhos, sem ninguém para rememorar os seus feitos.

Com essa escrita realista de Machado de Assis podemos fazer a seguinte reflexão, uma má orientação na criação dos filhos pode torná-los pessoas egoístas e sem amor ao próximo, sobrando somente o interesse por si mesmo. Esse sujeito, na vida adulta, não conseguirá amadurecer a sua consciência, por isso sofrerá as consequências. A primeira, é não saber lidar com as frustrações da vida, descontando essas decepções nos outros. O outro problema, será sua solidão acometida por ser uma pessoa ríspida e gananciosa. Ser como Cubas, é arriscar a viver e a morrer num limbo, sem ninguém para compartilhar as dores ou sentimentos, sem ninguém para lembrar as suas memórias que logo serão apagadas no esquecimento do falecimento. 


 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A Industrialização, a Pós-Modernidade e a Corrupção do Homem.

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A Industrialização, a Pós-Modernidade e a Corrupção do Homem.

Analise de “Landing” de Michael Whelan.

 Acreúna – GO, 2023

Michael Whelan é um pintor/ilustrador de arte fantástica estadunidense. Um dos pintores mais extraordinários de todos os tempos, na minha humilde opinião. “Landing” faz parte de uma série chamada “Passage to Sanctuary”. Nesta pintura, percebemos a composição de um ambiente aparentemente calmo, em meio a um campo bem arborizado, até ao fundo, complementando ainda mais a ambientação da cena. Na primeira camada, vemos uma escadaria lisa de mármore branco que não tem um final, parece não estar terminada. No início dessa escada observamos duas pequenas colunas de arestas e vértices quadráticas. Enfeitando essas pequenas colunas, vemos ramos de lavanda. Ainda, percebemos dois vasos de pequenas flores, cada um ao lado de cada coluna. Continuando a escada, logo vemos uma moça sentada sobre o parapeito, usando um vestido de cor pérola, quase branco, do período renascentista. Ela segura um livro, marcando a página. Aos seus pés, existe uma almofada de apoio.

Vamos nos atentar à simbologia. Primeiramente, o cenário nos traz a sensação de tranquilidade e paz, não por menos, a técnica do artista colabora para isso. A planície, as árvores e as suas sobras, os pássaros brancos reforçam esse sentimento de tranquilidade. Os pombos são um símbolo clássico da paz. E a lavanda representa limpeza, daquilo que é limpo, está relacionado as coisas puras e boas. O cenário transmite a mesma sensação.

A escada é a acessão para algo, ser bem-sucedido, indica aquele que tem que percorrer um caminho não necessariamente fácil. A moça não está a subir, mas pelo contrário, não parece estar preocupada para onde deve chegar, está sentada no início da estada a refletir sobre algo. O seu rosto não deixa mentir essa preocupação.

Em todo esse ambiente que remete ao sossego, à quietude, percebemos algo que não está padronizado. Os nossos olhos são direcionados ao topo da escada, no canto superior direito da pintura, vemos, então, uma estrutura decadente, mecanizada ou robotizada, com elementos que só poderiam fazer parte da industrialização contemporânea. É uma parte da escada que não se encaixa com os outros elementos, tem cores frias, desgastada e está abandonada.

Com essa parte quase fracassada da escada, sendo a escada um elemento humano que deveria levar para algum lugar, podemos refletir que o homem pós-moderno, contemporâneo, não é aquele ser de certezas concretas. É possível que os rumos das ideologias industrialistas progressistas estejam a levar o homem a sua decadência. As nossas escolhas éticas em uma sociedade totalmente apologizada pela industrialização, onde “tudo pode”, “tudo é permitido”, “não há limites para ninguém ou para nada”, tornar-nos-á uma sociedade em direção à distopia.  

É possível que a donzela do primeiro plano esteja a refletir justamente isto: será que a humanidade toma as decisões corretas? Não é somente Whelen que nos traz a essa ideia. Muitos literários clássicos de estórias direcionam-nos a essa constatação. Um bom exemplo é J.R. Tolkien no seu livro o Senhor dos Anéis. Percebemos isso quando Frodo e Sam retornam à sua terra natal e das suas árduas aventuras, encontram pelo caminho lugares tomados pela industrialização. O que era um lugar pacífico, de grama verde, de ares frescos, muitas árvores e vida fervescente; dá lugar a um ambiente cheio de fábricas, obscuro, sem vida e acinzentado.

O que esses artistas e autores estão nos direcionando é que, a decadência do ser e a industrialização progressista das coisas estão interligadas. O que, em verdade, se resume a ganância.  O lugar é puro e bom, mas pode, ou, é corrompido pela ganância. Todo esse imaginário industrial pós-moderno corrompe o homem.


https://www.michaelwhelan.com/galleries/landing/ 




sábado, 28 de janeiro de 2023

VIVER PELA CAUSA EM GUILLIAT.

 


VIVER PELA CAUSA EM GUILLIAT.

Os Trabalhadores do Mar de Victor Hugo.

Acreúna – GO, 2023.

 

A trama do livro Os Trabalhadores do Mar se passa numa ilha na costa da França chamada Guernsey, descrita por Victor Hugo como um local chuvoso e de praias, típico ambiente de pescadores, marinheiros e embarcações. Nesse local encontramos Gilliat que cresceu sem os pais, praticamente se criando sozinho. Aprendeu, também, todas as artimanhas marítimas durante a sua vida.

Gilliat é apaixonado desde a infância por Déruchett, sobrinha, criada como filha por um dos pescadores mais prósperos do local, Mess Léthierry. O caminho do nosso homem e da sua amada se cruzam quando um dia um dos barcos de Léthierry, navegado por outro capitão, chamado Clubin, bate no rochedo de Douvres ficando preso lá, quase afundado. Léthierry acreditando que Clubin morrera no acidente, propõe que aquele que conseguir resgatar o navio terá a mão de Déruchett, esta que aceita a condição. No entanto, mesmo com a promessa de dar a sobrinha em casamento, nenhum dos navegantes se propôs a realizar um trabalho tão árduo e arriscado.

O nosso protagonista vê nesse momento a oportunidade de conquista sua paixão. Este se dispõe, então, com outro barco, enfrentar os desafios de resgatar a embarcação. Durante muitos dias no rochedo, afrontou muitos percalços que o deixaram magro e doente. Entre esses problemas estava o de combater um polvo que quase o levou morte. Conseguindo resgatar a embarcação, Gilliat, volta rebocando a nau. Com o feito, ajudou, inclusive, a desvendar o mistério que existia entre o sócio de Léthierry e Clubin, que não morrera no acidente.

Ao passar por todas essas desgraças no desafio de resgatar a embarcação de Léthierry, Gilliant volta para a ilha na esperança de conquistar Déruchett, porém a moça já está apaixonada por outro rapaz. Ele percebe a paixão correspondida entre Déruchett e o reverendo Ebenezer Caudray. Para que a menina não tenha que cumprir a promessa feita ao tio, o nosso herói, já consagrado, e com os devidos títulos, ajuda o casal a fugir, a pegar um dos navios para fora de Guernsey.  Em uma das encostas da praia onde a maré alta consegue alcançar, Gilliat observava a embarcação que os enamorados tomam para poder fugir, com o tempo, a maré sobe e o nosso herói deixa-se levar pelo mar.

Há duas lições aqui a serem tomadas, a primeira é que não se deve tomar ninguém a força, por mais forte que seja os sentimentos. Até porque, não se está com a pessoa de fato quando ela não é presente de corpo e alma. Isso será somente uma ilusão, uma convivência de aparências.

A segunda, e a mais importante, é o ato heroico de Gilliat, quando se atentou que sua paixão não corresponderia aos seus desejos, decidiu abandoná-la. Gilliat não morre somente pelo fato de que Déruchett não estaria mais presente, morre pelo fato de ter completado sua missão, morre para e pelo mar. Ele viveu pela causa, morreu pelo trabalho no mar, era o verdadeiro trabalhador do mar. Por isso, como é dito na ultima linha do livro, “nada mais importava...”.  

Hegel, filosofo romântico alemão, diz que, o sujeito é aquilo que faz até o último momento da sua vida, é um homem que se doa por aquilo que pretende ser. Ser artista, músico, médico, educador (e outros) não é ser somente no âmbito da profissão, mas ser como essência. É ser em todas as fases da vida, inclusive perante a morte. Ora, o nosso exemplo maior de alguém que morre pela causa, e, por consequência, ele é a própria causa, este é Jesus Cristo. Cristo morreu por todos nós, é um homem que morre a enfrentar os desejos contrários, faz as escolhas difíceis e se sacrifica em nome de uma causa ontológica que só ele, como filho de Deus, poderia fazer.  

É importante a ação de observação e reflexão, estamos sempre querendo ser alguma coisa perante a sociedade, ou, simplesmente, ser para si mesmo. Porém, não levamos a sério a causa. Não é uma questão de encontrar um trabalho, ser profissional, mas sim, uma questão de encontrar algo que vale a pena trabalhar por aquilo, mesmo que por algum motivo, não se ganhe os louros do serviço prestado. Outro exemplo histórico é Vincent Van Gogh, que durante a sua vida como pintor não teve o devido reconhecimento. No entanto, fez o ato de pintar as motivações da sua vida. 

Os louros, as benevolências, são importantes para nós e para a nossa vida profissional e social. Mas, não pode ser tudo, em boa parte é algo passageiro que só irá servir para anestesiar o ego. Ser como essência, é não buscar o reconhecimento imediato, e sim, buscar o trabalho para ser reconhecido pela eternidade. 


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

BREVE COMENTÁRIO: VIAGENS DE GULLIVER DE JONATHA SUWIFT.

BREVE COMENTÁRIO: VIAGENS DE GULLIVER DE JONATHA SUWIFT.

Acreúna-GO, 2023. 

Gulliver é um personagem que por algum motivo, possivelmente místico ou divino, acaba se perdendo em “terras” antes desconhecidas pela humanidade. Uma das primeiras façanhas do herói foi de conhecer a ilha de Lilliput, onde conhece pessoas minúsculas, não maiores do que quinze centímetros de altura. Gulliver que faz amizade em um dos reinos, propõe-se a ajudar essas pessoas pequenas nos seus afazeres quotidianos. Também ajudar os pequenos na sua guerra contra outro reino inimigo, inteligentemente, evitando ferir os moradores de toda a ilha e ajudando na conciliação dos reinos.

O viajante, acusado de traição, foge do julgamento e ao chegar as margens da ilha é resgatado por um navio.

Gulliver em Lilliput. Thomas M. Balliet 

Em outra viagem, Gulliver, também ocasionado por uma tragédia, se vê presente em uma terra de gigantes chamada Broldingag. Dessa vez o personagem encontra-se em meio a pessoas de estaturas descomunais, podendo atingir a média de vinte e dois metros de altura. Nessa nova aventura, Gulliver não tem muito o que fazer, a não ser ficar à mercê dos gigantes, dos quais o sustentam e se divertem com o protagonista.

Certo dia Gulliver, numa viagem a praia, numa caixa de fósforo, é raptado por uma águia que deixa a caixa cair no mar. Em seguida é resgatado por um navio.

Gulliver em Broldingag. Thomas M. Balliet  

Novamente, acometido de uma nova tragédia, dessa vez, atacado por piratas, fazendo com que o nosso herói fique perdido em alto-mar. Gulliver é resgatado por uma ilha flutuante chamada Laputa, nela existem mais três países estranhos: Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib. Nessa ilha voadora, Gulliver passa por aventuras místicas e experiencias científicas não muito objetivas. Dentre esses países a melhor história se passa na ilha de Balnibardi, mostrando uma sociedade engajada em descobrimentos científicos, o problema é que esses descobrimentos não são tão práticos e eficazes naquilo que poderia beneficiar uma sociedade.

Chegando ao Japão, Gulliver consegue uma autorização do imperador para voltar para casa.

A ilha de Laputa encontra Gulliver. Gérard Grandville 

Passando algum tempo, depois de Gulliver se livrar dos traumas das últimas viagens, volta às naus. Dentro da embarcação, veio advir um motim, o herói é abandonado num pedaço de terra. Nesse lugar, encontra formas humanas peludas, os Yahoos, que vivam de maneira animalesca, situação essa que causa asco a Gulliver. Por outro lado, na mesma terra, encontra-se criaturas em forma de cavalos, conhecidas como Houyhnhnms, que vivem de tal forma racional, ética e civil, superior em comparação à própria vida humana, fato este que deixa o aventureiro envergonhado da sua própria criação e civilização. Ora, o viajante presenciou a existência de uma espécie não-humana, cuja a ética deixa envergonhado o mais nobre dos homens, esses eram os Houyhnhnms.

Como a sociedade do Houyhnhnms considerou Gulliver uma ser perigoso, que poderia corromper os indivíduos, decidiram expulsá-lo dessa ilha.

A sociedade dos Houyhnhnms, com sua ética, afetou o aventureiro de tal maneira que este tinha dificuldade de se comunicar com as pessoas próximas, inclusive com a própria família.  

Gulliver com os Houyhnhnms. Autor desconhecido. 

Finalmente, outra lição que podemos tirar do livro As Viagens de Gulliver é que este é um manual de antropologia. Assim, nosso viajante, muito estudado e dedicando, é um observador curioso das sociedades, mesmo que estranhas, nas suas aventuras. Inclusive colocando-se de forma humilde e dedicando, até quando poderia exercer poder; um exemplo desse fato, seria quando visitou Lilliput e deparou-se com os pequenos homens dessa ilha. Gulliver, escreve a fazer descrições minuciosas dos cidadãos e das suas Constituições, sem afetá-los, descrevendo aquilo que concorda ou não de cada situação presenciada. Interessado, o aventureiro está sempre engajado a descobrir novas possibilidades e os descreve bem, assim como deve ser aqueles que querem analisar e relatar uma determinada situação social de forma mais científica, antropológica.