terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A Industrialização, a Pós-Modernidade e a Corrupção do Homem.

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A Industrialização, a Pós-Modernidade e a Corrupção do Homem.

Analise de “Landing” de Michael Whelan.

 Acreúna – GO, 2023

Michael Whelan é um pintor/ilustrador de arte fantástica estadunidense. Um dos pintores mais extraordinários de todos os tempos, na minha humilde opinião. “Landing” faz parte de uma série chamada “Passage to Sanctuary”. Nesta pintura, percebemos a composição de um ambiente aparentemente calmo, em meio a um campo bem arborizado, até ao fundo, complementando ainda mais a ambientação da cena. Na primeira camada, vemos uma escadaria lisa de mármore branco que não tem um final, parece não estar terminada. No início dessa escada observamos duas pequenas colunas de arestas e vértices quadráticas. Enfeitando essas pequenas colunas, vemos ramos de lavanda. Ainda, percebemos dois vasos de pequenas flores, cada um ao lado de cada coluna. Continuando a escada, logo vemos uma moça sentada sobre o parapeito, usando um vestido de cor pérola, quase branco, do período renascentista. Ela segura um livro, marcando a página. Aos seus pés, existe uma almofada de apoio.

Vamos nos atentar à simbologia. Primeiramente, o cenário nos traz a sensação de tranquilidade e paz, não por menos, a técnica do artista colabora para isso. A planície, as árvores e as suas sobras, os pássaros brancos reforçam esse sentimento de tranquilidade. Os pombos são um símbolo clássico da paz. E a lavanda representa limpeza, daquilo que é limpo, está relacionado as coisas puras e boas. O cenário transmite a mesma sensação.

A escada é a acessão para algo, ser bem-sucedido, indica aquele que tem que percorrer um caminho não necessariamente fácil. A moça não está a subir, mas pelo contrário, não parece estar preocupada para onde deve chegar, está sentada no início da estada a refletir sobre algo. O seu rosto não deixa mentir essa preocupação.

Em todo esse ambiente que remete ao sossego, à quietude, percebemos algo que não está padronizado. Os nossos olhos são direcionados ao topo da escada, no canto superior direito da pintura, vemos, então, uma estrutura decadente, mecanizada ou robotizada, com elementos que só poderiam fazer parte da industrialização contemporânea. É uma parte da escada que não se encaixa com os outros elementos, tem cores frias, desgastada e está abandonada.

Com essa parte quase fracassada da escada, sendo a escada um elemento humano que deveria levar para algum lugar, podemos refletir que o homem pós-moderno, contemporâneo, não é aquele ser de certezas concretas. É possível que os rumos das ideologias industrialistas progressistas estejam a levar o homem a sua decadência. As nossas escolhas éticas em uma sociedade totalmente apologizada pela industrialização, onde “tudo pode”, “tudo é permitido”, “não há limites para ninguém ou para nada”, tornar-nos-á uma sociedade em direção à distopia.  

É possível que a donzela do primeiro plano esteja a refletir justamente isto: será que a humanidade toma as decisões corretas? Não é somente Whelen que nos traz a essa ideia. Muitos literários clássicos de estórias direcionam-nos a essa constatação. Um bom exemplo é J.R. Tolkien no seu livro o Senhor dos Anéis. Percebemos isso quando Frodo e Sam retornam à sua terra natal e das suas árduas aventuras, encontram pelo caminho lugares tomados pela industrialização. O que era um lugar pacífico, de grama verde, de ares frescos, muitas árvores e vida fervescente; dá lugar a um ambiente cheio de fábricas, obscuro, sem vida e acinzentado.

O que esses artistas e autores estão nos direcionando é que, a decadência do ser e a industrialização progressista das coisas estão interligadas. O que, em verdade, se resume a ganância.  O lugar é puro e bom, mas pode, ou, é corrompido pela ganância. Todo esse imaginário industrial pós-moderno corrompe o homem.


https://www.michaelwhelan.com/galleries/landing/ 




sábado, 28 de janeiro de 2023

VIVER PELA CAUSA EM GUILLIAT.

 


VIVER PELA CAUSA EM GUILLIAT.

Os Trabalhadores do Mar de Victor Hugo.

Acreúna – GO, 2023.

 

A trama do livro Os Trabalhadores do Mar se passa numa ilha na costa da França chamada Guernsey, descrita por Victor Hugo como um local chuvoso e de praias, típico ambiente de pescadores, marinheiros e embarcações. Nesse local encontramos Gilliat que cresceu sem os pais, praticamente se criando sozinho. Aprendeu, também, todas as artimanhas marítimas durante a sua vida.

Gilliat é apaixonado desde a infância por Déruchett, sobrinha, criada como filha por um dos pescadores mais prósperos do local, Mess Léthierry. O caminho do nosso homem e da sua amada se cruzam quando um dia um dos barcos de Léthierry, navegado por outro capitão, chamado Clubin, bate no rochedo de Douvres ficando preso lá, quase afundado. Léthierry acreditando que Clubin morrera no acidente, propõe que aquele que conseguir resgatar o navio terá a mão de Déruchett, esta que aceita a condição. No entanto, mesmo com a promessa de dar a sobrinha em casamento, nenhum dos navegantes se propôs a realizar um trabalho tão árduo e arriscado.

O nosso protagonista vê nesse momento a oportunidade de conquista sua paixão. Este se dispõe, então, com outro barco, enfrentar os desafios de resgatar a embarcação. Durante muitos dias no rochedo, afrontou muitos percalços que o deixaram magro e doente. Entre esses problemas estava o de combater um polvo que quase o levou morte. Conseguindo resgatar a embarcação, Gilliat, volta rebocando a nau. Com o feito, ajudou, inclusive, a desvendar o mistério que existia entre o sócio de Léthierry e Clubin, que não morrera no acidente.

Ao passar por todas essas desgraças no desafio de resgatar a embarcação de Léthierry, Gilliant volta para a ilha na esperança de conquistar Déruchett, porém a moça já está apaixonada por outro rapaz. Ele percebe a paixão correspondida entre Déruchett e o reverendo Ebenezer Caudray. Para que a menina não tenha que cumprir a promessa feita ao tio, o nosso herói, já consagrado, e com os devidos títulos, ajuda o casal a fugir, a pegar um dos navios para fora de Guernsey.  Em uma das encostas da praia onde a maré alta consegue alcançar, Gilliat observava a embarcação que os enamorados tomam para poder fugir, com o tempo, a maré sobe e o nosso herói deixa-se levar pelo mar.

Há duas lições aqui a serem tomadas, a primeira é que não se deve tomar ninguém a força, por mais forte que seja os sentimentos. Até porque, não se está com a pessoa de fato quando ela não é presente de corpo e alma. Isso será somente uma ilusão, uma convivência de aparências.

A segunda, e a mais importante, é o ato heroico de Gilliat, quando se atentou que sua paixão não corresponderia aos seus desejos, decidiu abandoná-la. Gilliat não morre somente pelo fato de que Déruchett não estaria mais presente, morre pelo fato de ter completado sua missão, morre para e pelo mar. Ele viveu pela causa, morreu pelo trabalho no mar, era o verdadeiro trabalhador do mar. Por isso, como é dito na ultima linha do livro, “nada mais importava...”.  

Hegel, filosofo romântico alemão, diz que, o sujeito é aquilo que faz até o último momento da sua vida, é um homem que se doa por aquilo que pretende ser. Ser artista, músico, médico, educador (e outros) não é ser somente no âmbito da profissão, mas ser como essência. É ser em todas as fases da vida, inclusive perante a morte. Ora, o nosso exemplo maior de alguém que morre pela causa, e, por consequência, ele é a própria causa, este é Jesus Cristo. Cristo morreu por todos nós, é um homem que morre a enfrentar os desejos contrários, faz as escolhas difíceis e se sacrifica em nome de uma causa ontológica que só ele, como filho de Deus, poderia fazer.  

É importante a ação de observação e reflexão, estamos sempre querendo ser alguma coisa perante a sociedade, ou, simplesmente, ser para si mesmo. Porém, não levamos a sério a causa. Não é uma questão de encontrar um trabalho, ser profissional, mas sim, uma questão de encontrar algo que vale a pena trabalhar por aquilo, mesmo que por algum motivo, não se ganhe os louros do serviço prestado. Outro exemplo histórico é Vincent Van Gogh, que durante a sua vida como pintor não teve o devido reconhecimento. No entanto, fez o ato de pintar as motivações da sua vida. 

Os louros, as benevolências, são importantes para nós e para a nossa vida profissional e social. Mas, não pode ser tudo, em boa parte é algo passageiro que só irá servir para anestesiar o ego. Ser como essência, é não buscar o reconhecimento imediato, e sim, buscar o trabalho para ser reconhecido pela eternidade. 


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

BREVE COMENTÁRIO: VIAGENS DE GULLIVER DE JONATHA SUWIFT.

BREVE COMENTÁRIO: VIAGENS DE GULLIVER DE JONATHA SUWIFT.

Acreúna-GO, 2023. 

Gulliver é um personagem que por algum motivo, possivelmente místico ou divino, acaba se perdendo em “terras” antes desconhecidas pela humanidade. Uma das primeiras façanhas do herói foi de conhecer a ilha de Lilliput, onde conhece pessoas minúsculas, não maiores do que quinze centímetros de altura. Gulliver que faz amizade em um dos reinos, propõe-se a ajudar essas pessoas pequenas nos seus afazeres quotidianos. Também ajudar os pequenos na sua guerra contra outro reino inimigo, inteligentemente, evitando ferir os moradores de toda a ilha e ajudando na conciliação dos reinos.

O viajante, acusado de traição, foge do julgamento e ao chegar as margens da ilha é resgatado por um navio.

Gulliver em Lilliput. Thomas M. Balliet 

Em outra viagem, Gulliver, também ocasionado por uma tragédia, se vê presente em uma terra de gigantes chamada Broldingag. Dessa vez o personagem encontra-se em meio a pessoas de estaturas descomunais, podendo atingir a média de vinte e dois metros de altura. Nessa nova aventura, Gulliver não tem muito o que fazer, a não ser ficar à mercê dos gigantes, dos quais o sustentam e se divertem com o protagonista.

Certo dia Gulliver, numa viagem a praia, numa caixa de fósforo, é raptado por uma águia que deixa a caixa cair no mar. Em seguida é resgatado por um navio.

Gulliver em Broldingag. Thomas M. Balliet  

Novamente, acometido de uma nova tragédia, dessa vez, atacado por piratas, fazendo com que o nosso herói fique perdido em alto-mar. Gulliver é resgatado por uma ilha flutuante chamada Laputa, nela existem mais três países estranhos: Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib. Nessa ilha voadora, Gulliver passa por aventuras místicas e experiencias científicas não muito objetivas. Dentre esses países a melhor história se passa na ilha de Balnibardi, mostrando uma sociedade engajada em descobrimentos científicos, o problema é que esses descobrimentos não são tão práticos e eficazes naquilo que poderia beneficiar uma sociedade.

Chegando ao Japão, Gulliver consegue uma autorização do imperador para voltar para casa.

A ilha de Laputa encontra Gulliver. Gérard Grandville 

Passando algum tempo, depois de Gulliver se livrar dos traumas das últimas viagens, volta às naus. Dentro da embarcação, veio advir um motim, o herói é abandonado num pedaço de terra. Nesse lugar, encontra formas humanas peludas, os Yahoos, que vivam de maneira animalesca, situação essa que causa asco a Gulliver. Por outro lado, na mesma terra, encontra-se criaturas em forma de cavalos, conhecidas como Houyhnhnms, que vivem de tal forma racional, ética e civil, superior em comparação à própria vida humana, fato este que deixa o aventureiro envergonhado da sua própria criação e civilização. Ora, o viajante presenciou a existência de uma espécie não-humana, cuja a ética deixa envergonhado o mais nobre dos homens, esses eram os Houyhnhnms.

Como a sociedade do Houyhnhnms considerou Gulliver uma ser perigoso, que poderia corromper os indivíduos, decidiram expulsá-lo dessa ilha.

A sociedade dos Houyhnhnms, com sua ética, afetou o aventureiro de tal maneira que este tinha dificuldade de se comunicar com as pessoas próximas, inclusive com a própria família.  

Gulliver com os Houyhnhnms. Autor desconhecido. 

Finalmente, outra lição que podemos tirar do livro As Viagens de Gulliver é que este é um manual de antropologia. Assim, nosso viajante, muito estudado e dedicando, é um observador curioso das sociedades, mesmo que estranhas, nas suas aventuras. Inclusive colocando-se de forma humilde e dedicando, até quando poderia exercer poder; um exemplo desse fato, seria quando visitou Lilliput e deparou-se com os pequenos homens dessa ilha. Gulliver, escreve a fazer descrições minuciosas dos cidadãos e das suas Constituições, sem afetá-los, descrevendo aquilo que concorda ou não de cada situação presenciada. Interessado, o aventureiro está sempre engajado a descobrir novas possibilidades e os descreve bem, assim como deve ser aqueles que querem analisar e relatar uma determinada situação social de forma mais científica, antropológica.