O FENÔMENO DA NATURALIZAÇÃO DA FOFOCA.
Acreúna – GO, 2023.
Carl Bloch; Na Taberna Romana.
Há um fenômeno atípico que
cresce na nossa sociedade, a qual é a naturalidade da fofoca. Atente-se que a
naturalidade não é somente por parte de quem faz a fofoca, mas, agora, também
por parte daqueles que são atacados por ela. Isso mesmo, falar da vida alheia
se tornou algo natural. Para os que recebem os comentários maldosos, o que vale
é estar se mostrando, ser observado, assim como é num espetáculo.
É difícil apontar um fator
específico, tudo indica que, as mídias, principalmente a “internet”, mudou e
muda a moral e a ética das pessoas. Basicamente é uma vontade de estar a ser
falado pelos outros, mesmo que esse falar seja para denegrir a pessoa de quem
se comenta. Mesmo assim, essa pessoa quer estar na boca do povo. É uma verdadeira
“sociedade do espetáculo”.
“Youtubers”, “influencers”, os não famosos do Big Brother Brasil (BBB) e todos os outros que ocorrem nos canais de entretenimento que expõe a vida das pessoas escancaradamente, mostram à nossa sociedade que, o que importa é ter fama, não importando a maneira. Isso está, por bem ou por mal, creio eu por mal, nos afetando.
Vamos ao primeiro princípio, que é sobre a pessoa que está fazendo a fofoca. Ela, basicamente, está reagindo aos seus instintos naturais, hormonais. Age mais pelos sentimentos do que pela razão. Fazer a fofoca dá prazer as pessoas, afinal, o intuito é ver a decadência do outro.
É bom lembrar de uma máxima na
filosofia, até mesmo na psicanálise: o ato estar a falar dos outros, fala mais
sobre si do que dos outros. Isso é a inveja, sim, inveja de não poder se
aventurar nas mesmas proporções da pessoa que se fala. Isso é outra vontade
humana, passar por aventuras. Na literatura está cheia dessa proposta, a ela
encontramos em Rei Arthur, Dom Quixote, Robin Hood, e muitos outros. É a
tentação de não estar num estado monótono, chamamos isso de tédio. Esses
sentimentos servem também para os que dão continuidade ao falatório alheio.
O segundo princípio, falamos
daquele que aceita, naturalmente, a fofoca sobre si. Isso pode ser positivo e
negativo; lembrando que, um não está desligado do outro. Pode ser positivo, já
que não deixou que o falatório alheio tomasse conta da sua vida social; não
deixou que o ponto de vista de outros, geralmente depreciativo, afetasse o seu
cotidiano. O lado negativo, é que essa naturalidade, propõe que somos uma
sociedade que não se preocupa mais com a moral, e isso pode afetar as nossas
ações éticas, ou seja, ações que temos que determinar racionalmente a melhor
maneira de agir.
Direcionando-nos ao ponto
negativo, a falta tanto da moral quanto da ética, parece, a princípio,
inocente, todavia se colocarmos essas virtudes dentro de um ambiente estatal ou
empresarial, vamos ver que isso pode acarretar em um estrago muito grande.
Imagine só, um governante, um empresário ou um servidor sem ética cuidando de
processos, compras e vendas, dinheiro e afins. Parece absurdo, no entanto,
nossa sociedade atual está repleta desses sujeitos. Infelizmente, isso é uma
realidade, é concreto. O estrago cujo sujeito que não reflete sobre suas ações faz
em uma sociedade é imensurável.
A naturalidade da fofoca
colabora para que o sujeito não consiga perceber a importância das virtudes,
isso vai se agravando com o tempo. Um sujeito sem virtude somente age pelas próprias
vontades, é um mimado que não consegue pensar além da esfera que está ao seu
redor, do seu pequeno mundo.
O fenômeno da naturalização da
fofoca, seja por aquele que faz, seja por aquele que se sente à vontade sendo abordado
por ela, agem pelo afeto. Não têm amor por si, mesmo que vociferem o oposto. Dá
mesma forma que não sentem compaixão pelos outros. Estão a buscar uma fama
imediata, da qual as mídias de massa, principalmente a “internet”, insistem em
fazer-nos acreditar que existe. Para ambos os lados, é um eterno se mostrar-se.
Isso é a “sociedade do espetáculo”.

