domingo, 19 de fevereiro de 2023

O FENÔMENO DA NATURALIZAÇÃO DA FOFOCA.

 

O FENÔMENO DA NATURALIZAÇÃO DA FOFOCA.

Acreúna – GO, 2023. 

Carl Bloch; Na Taberna Romana. 

Há um fenômeno atípico que cresce na nossa sociedade, a qual é a naturalidade da fofoca. Atente-se que a naturalidade não é somente por parte de quem faz a fofoca, mas, agora, também por parte daqueles que são atacados por ela. Isso mesmo, falar da vida alheia se tornou algo natural. Para os que recebem os comentários maldosos, o que vale é estar se mostrando, ser observado, assim como é num espetáculo.

É difícil apontar um fator específico, tudo indica que, as mídias, principalmente a “internet”, mudou e muda a moral e a ética das pessoas. Basicamente é uma vontade de estar a ser falado pelos outros, mesmo que esse falar seja para denegrir a pessoa de quem se comenta. Mesmo assim, essa pessoa quer estar na boca do povo. É uma verdadeira “sociedade do espetáculo”.  

“Youtubers”, “influencers”, os não famosos do Big Brother Brasil (BBB) e todos os outros que ocorrem nos canais de entretenimento que expõe a vida das pessoas escancaradamente, mostram à nossa sociedade que, o que importa é ter fama, não importando a maneira. Isso está, por bem ou por mal, creio eu por mal, nos afetando.

Vamos ao primeiro princípio, que é sobre a pessoa que está fazendo a fofoca. Ela, basicamente, está reagindo aos seus instintos naturais, hormonais. Age mais pelos sentimentos do que pela razão. Fazer a fofoca dá prazer as pessoas, afinal, o intuito é ver a decadência do outro.

É bom lembrar de uma máxima na filosofia, até mesmo na psicanálise: o ato estar a falar dos outros, fala mais sobre si do que dos outros. Isso é a inveja, sim, inveja de não poder se aventurar nas mesmas proporções da pessoa que se fala. Isso é outra vontade humana, passar por aventuras. Na literatura está cheia dessa proposta, a ela encontramos em Rei Arthur, Dom Quixote, Robin Hood, e muitos outros. É a tentação de não estar num estado monótono, chamamos isso de tédio. Esses sentimentos servem também para os que dão continuidade ao falatório alheio.

O segundo princípio, falamos daquele que aceita, naturalmente, a fofoca sobre si. Isso pode ser positivo e negativo; lembrando que, um não está desligado do outro. Pode ser positivo, já que não deixou que o falatório alheio tomasse conta da sua vida social; não deixou que o ponto de vista de outros, geralmente depreciativo, afetasse o seu cotidiano. O lado negativo, é que essa naturalidade, propõe que somos uma sociedade que não se preocupa mais com a moral, e isso pode afetar as nossas ações éticas, ou seja, ações que temos que determinar racionalmente a melhor maneira de agir. 

Direcionando-nos ao ponto negativo, a falta tanto da moral quanto da ética, parece, a princípio, inocente, todavia se colocarmos essas virtudes dentro de um ambiente estatal ou empresarial, vamos ver que isso pode acarretar em um estrago muito grande. Imagine só, um governante, um empresário ou um servidor sem ética cuidando de processos, compras e vendas, dinheiro e afins. Parece absurdo, no entanto, nossa sociedade atual está repleta desses sujeitos. Infelizmente, isso é uma realidade, é concreto. O estrago cujo sujeito que não reflete sobre suas ações faz em uma sociedade é imensurável.

A naturalidade da fofoca colabora para que o sujeito não consiga perceber a importância das virtudes, isso vai se agravando com o tempo. Um sujeito sem virtude somente age pelas próprias vontades, é um mimado que não consegue pensar além da esfera que está ao seu redor, do seu pequeno mundo. 

 

O fenômeno da naturalização da fofoca, seja por aquele que faz, seja por aquele que se sente à vontade sendo abordado por ela, agem pelo afeto. Não têm amor por si, mesmo que vociferem o oposto. Dá mesma forma que não sentem compaixão pelos outros. Estão a buscar uma fama imediata, da qual as mídias de massa, principalmente a “internet”, insistem em fazer-nos acreditar que existe. Para ambos os lados, é um eterno se mostrar-se. Isso é a “sociedade do espetáculo”. 


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

A REBELDIA DE SÃO DINIZ: O CEFALÓFORO.

 

A REBELDIA DE SÃO DINIZ: O CEFALÓFORO.  

Martírio de São Diniz (Le Martyre de Saint-Denis) - Leon Bonnat 1880.

Acreúna-GO, 2023. 


O mural o Martírio de São Diniz (Saint-Denis) retrata o auge do momento em que o Santo, condenado à morte pela perseguição romana aos cristãos depois do século 250 d.C., toma a sua cabeça nas mães e a carrega por muitos metros, após ser decapitado. Com o ato de mártir de Diniz, faz-se converter muitos fiéis à religião católica, em Paris, França. Depois, no local do seu desfalecimento, é construída a igreja de Saint-Denis.

Há toda uma questão simbólica já presente na pintura e na história, mas o que quero destacar aqui é a questão da persistência do espírito de São Diniz. Depois de todo o feito em vida, de ter enfrentado a comunidade gaulesa e a política romana, continua persistido mesmo após decapitado. Configurando-se, assim, um ato de resistência.

A verdade, é que, existe um simbolismo muito grande, impactante, no feito de carregar a própria cabeça nos braços, isso é uma ação de rebeldia, não somente contra um sistema social/político, mas, também, contra o próprio determinismo da física. Com esse ato, o Santo vai de encontro, tanto com o sistema político, quanto com o próprio limite do corpo. Todos esses acontecimentos têm um catalisador, o qual é Deus. 

Perceba que chegamos a outra questão. Os grandes feitos, os que transformam de fato a si e toda uma sociedade, na sua grande maioria são designados àqueles que estão na presença de Deus e da santa Trindade. Os feitos da Bíblia são marcados por esses motivos, os atos históricos heroicos também são marcados pelo mesmo princípio. Isso se dá pelas motivações de acreditar em algo bom e maior. Maior do que a si mesmo, maior do que a própria política humana.

Persistir nas coisas difíceis e impossíveis, podem trazer bons frutos no futuro, mesmo que o idealizador não esteja mais em vida. É alguém que consegue ver além das aparências, planejar algo que vai além do seu ser. Esse homem tem como finalidade o de criar uma sociedade melhor. Por isso, o povo percebendo o esforço de São Diniz, tanto em vida, quanto na morte, se converte ao cristianismo. Tudo isso foi o trabalho ingrato do Mártir durante toda a vida, e que, mesmo sendo ingrato, não desistiu dele, o que fez refletir na sua morte.  

Quantas vezes deixamos abater pelas ofensas dos outros? Quantas vezes deixamos que as ações do estado nos aflita? Quantas vezes deixamos que as ilusões da vida imediatista nos enganem? Facilmente desanimamos. Mas, há de ser ao contrário, deveríamos reerguer-nos como um mártir cefalóforo, carregar a cabeça decapitada e organizar-nos, planejar, ver além, para assim, construir um lugar melhor. 

 

Referências:

CRUZ TERRA SANTA: https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-sao-denis/136/102/

Imagem:

https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Leon-Joseph-Florentin-Bonnat/90283/O-mart%C3%ADrio-de-s%C3%A3o-denis-(mural).html

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A CORAJEM DE TOMAR AS ATITUDES ELEVADAS.

 

A CORAJEM DE TOMAR AS ATITUDES ELEVADAS.

O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini.

Acreúna – GO, 2023.

 


A história “O Caçador de Pipas” começa no Afeganistão, antes da queda da monarquia pelos comunistas. Nela vemos, inicialmente, uma bela amizade entre Amir e Hassan. Porém, Amir, de família nobre, tem vergonha de lidar com a amizade de Hassan. Filho do empregado da casa, Hassan, também é um hazara, comunidade de uma casta desfavorecida de Cabul. Assim é, até as tramas se desenrolarem.

Na história, percebemos uma diferença de personalidades entre as duas crianças, Amir é mais centrado, introvertido e gosta de ler e escrever. O pequeno nobre de Cabul, inclusive, se sente desprezado pelo pai por ter tal personalidade. Por outro lado, Hassan é esperto, aventureiro e confrontador.

Uma das últimas aventuras dos dois amigos, Hassan vai em busca de uma arraia cortada na linha pela pipa de Amir, no final do campeonato de pipas. Como o hazara se pôs à frente do amigo, encontra uma turma de adolescentes buscando desordem, que maltratam o garoto; ao perceber o que acontecia, Amir se esconde.   Entre os rufiões estava Assef, líder da turma, sádico, a tal pondo de violentar Hassan. Mesmo assim, o garoto consegue proteger a pipa, devolvendo-a ao amigo. Infelizmente, por algum motivo, dada a situação, os dois não conseguem reatar a amizade. Alguns dias depois, acontece a invasão dos soviéticos no Afeganistão, por isso, Baba, pai de Amir, decide, junto ao filho, fugir do país e os dois amigos não mais se encontraram.

Há um problema aqui, é difícil conceber o que acontece com Amir ao ver o amigo hazara realizando um feito que necessariamente não era da sua obrigação. Hassan faz algo que estava além do seu encargo, provavelmente por isso Amir se incomoda tanto. O próprio Hassan diria que faria de tudo pelo amigo Amir, e isso o incomodava.

Existem pessoas que realizam feitos tão nobres ao ponto de nos incomodar. Incomodam, porque no senso comum, na sociedade em geral é difícil aceitar aquele que age da forma correta, independentemente de qualquer sofrimento. Fazer as coisas certas, metodicamente, é tomar decisões que podem pesar nas nossas vidas. Por consequência, causa ao outro um certo asco, seja por inveja, seja por não admitir que a ação aceita socialmente, na maioria das vezes, seria uma ação que não se aplicaria à verdadeira justiça.

Se nos direcionarmos ao sentido mais psicológico, vamos perceber que essa repugnância não é pelo outro, na verdade, é por si mesmo. É por si mesmo, já que, influenciado pela grande massa, o sujeito não consegue realizar as ações verdadeiramente nobres; também, por ignorância, não consegue compreender os motivos que levam o outro a tomar tal atitude. Esse era Amir, que sentia raiva da própria pessoa por não ter conseguido ter a coragem de Hassan, naquele momento.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

BRÁS CUBAS: A DOR DA MORTE SOLITÁRIA

BRÁS CUBAS: A DOR DA MORTE SOLITÁRIA

Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.

 Acreúna-GO, 2023.

 

Já no seu descanso eterno, Brás Cubas narra a sua história a realizar uma análise da sua vida de trás para frente. Tendo como principal cenário o Segundo Império no Brasil, Brás Cubas dedica a sua trajetória tentando ser bem-sucedido, mesmo que para isso tenha que usar de artifícios não necessariamente éticos. O protagonista sempre articula para sobressair aos outros, sendo eles próximos ou não, deixando-se engajar principalmente com a política.

Tendo todo esse enredo de ganância à vista, a trama desenrola-se com Brás Cubas sempre querendo adquirir mais poder e influência sobre os outros. Existem muitos fatores para tentar explicar as atitudes de Cubas, um deles são seus próprios familiares, que deixavam ele, ainda criança, fazer o que bem entendia, inclusive algazarra com os serviçais.

Direcionando-nos ao pai de Brás, Bento Cubas, vamos perceber algumas ações que colaborarão para as atitudes negativas do filho. Bento cuidava muito bem do filho, o patriarca tinha inclusive orgulho do menino, o problema é que a criança abusava dos escravos e da boa vontade das outras pessoas, futuramente se tornando um adulto mimado. Todos esses fatores fizeram com que Brás Cubas tivesse atitudes egoístas ao longo da sua vida. Tendo por fim, uma morte solitária, sem esposa ou filhos, sem ninguém para rememorar os seus feitos.

Com essa escrita realista de Machado de Assis podemos fazer a seguinte reflexão, uma má orientação na criação dos filhos pode torná-los pessoas egoístas e sem amor ao próximo, sobrando somente o interesse por si mesmo. Esse sujeito, na vida adulta, não conseguirá amadurecer a sua consciência, por isso sofrerá as consequências. A primeira, é não saber lidar com as frustrações da vida, descontando essas decepções nos outros. O outro problema, será sua solidão acometida por ser uma pessoa ríspida e gananciosa. Ser como Cubas, é arriscar a viver e a morrer num limbo, sem ninguém para compartilhar as dores ou sentimentos, sem ninguém para lembrar as suas memórias que logo serão apagadas no esquecimento do falecimento.