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A Industrialização, a Pós-Modernidade e a Corrupção do Homem.
Analise de “Landing” de Michael Whelan.
Acreúna – GO, 2023
Michael Whelan é um
pintor/ilustrador de arte fantástica estadunidense. Um dos pintores mais extraordinários
de todos os tempos, na minha humilde opinião. “Landing” faz parte de uma série
chamada “Passage to Sanctuary”. Nesta pintura, percebemos a composição de um
ambiente aparentemente calmo, em meio a um campo bem arborizado, até ao fundo,
complementando ainda mais a ambientação da cena. Na primeira camada, vemos uma
escadaria lisa de mármore branco que não tem um final, parece não estar
terminada. No início dessa escada observamos duas pequenas colunas de arestas e
vértices quadráticas. Enfeitando essas pequenas colunas, vemos ramos de
lavanda. Ainda, percebemos dois vasos de pequenas flores, cada um ao lado de
cada coluna. Continuando a escada, logo vemos uma moça sentada sobre o
parapeito, usando um vestido de cor pérola, quase branco, do período
renascentista. Ela segura um livro, marcando a página. Aos seus pés, existe uma
almofada de apoio.
Vamos nos atentar à simbologia.
Primeiramente, o cenário nos traz a sensação de tranquilidade e paz, não por
menos, a técnica do artista colabora para isso. A planície, as árvores e as
suas sobras, os pássaros brancos reforçam esse sentimento de tranquilidade. Os
pombos são um símbolo clássico da paz. E a lavanda representa limpeza, daquilo
que é limpo, está relacionado as coisas puras e boas. O cenário transmite a
mesma sensação.
A escada é a acessão para algo,
ser bem-sucedido, indica aquele que tem que percorrer um caminho não necessariamente
fácil. A moça não está a subir, mas pelo contrário, não parece estar preocupada
para onde deve chegar, está sentada no início da estada a refletir sobre algo.
O seu rosto não deixa mentir essa preocupação.
Em todo esse ambiente que remete
ao sossego, à quietude, percebemos algo que não está padronizado. Os nossos
olhos são direcionados ao topo da escada, no canto superior direito da pintura,
vemos, então, uma estrutura decadente, mecanizada ou robotizada, com elementos
que só poderiam fazer parte da industrialização contemporânea. É uma parte da
escada que não se encaixa com os outros elementos, tem cores frias, desgastada
e está abandonada.
Com essa parte quase fracassada
da escada, sendo a escada um elemento humano que deveria levar para algum
lugar, podemos refletir que o homem pós-moderno, contemporâneo, não é aquele
ser de certezas concretas. É possível que os rumos das ideologias
industrialistas progressistas estejam a levar o homem a sua decadência. As
nossas escolhas éticas em uma sociedade totalmente apologizada pela
industrialização, onde “tudo pode”, “tudo é permitido”, “não há limites para
ninguém ou para nada”, tornar-nos-á uma sociedade em direção à distopia.
É possível que a donzela do
primeiro plano esteja a refletir justamente isto: será que a humanidade toma as
decisões corretas? Não é somente Whelen que nos traz a essa ideia. Muitos
literários clássicos de estórias direcionam-nos a essa constatação. Um bom
exemplo é J.R. Tolkien no seu livro o Senhor dos Anéis. Percebemos isso quando
Frodo e Sam retornam à sua terra natal e das suas árduas aventuras, encontram
pelo caminho lugares tomados pela industrialização. O que era um lugar
pacífico, de grama verde, de ares frescos, muitas árvores e vida fervescente;
dá lugar a um ambiente cheio de fábricas, obscuro, sem vida e acinzentado.
O que esses artistas e autores
estão nos direcionando é que, a decadência do ser e a industrialização
progressista das coisas estão interligadas. O que, em verdade, se resume a
ganância. O lugar é puro e bom, mas
pode, ou, é corrompido pela ganância. Todo esse imaginário industrial
pós-moderno corrompe o homem.
https://www.michaelwhelan.com/galleries/landing/

